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Rota do Fresco
Conservação e Restauro
Igreja Matriz de Vila Ruiva

Albergando um importante e diversificado conjunto de campanhas sobrepostas de pintura mural, a Igreja Matriz de Vila Ruiva foi intervencionada pela primeira vez em 1973, na sequência de alertas por parte do Pároco de então, que vinha chamando a atenção das entidades responsáveis para o estado de degradação da Igreja e das suas obras de arte. Assim, ainda nesse ano, os frescos da Matriz foram observados pela equipa da Divisão de Pintura Mural do antigo Instituto José de Figueiredo, tendo começado de imediato a sua intervenção. A cobertura da Igreja estava, desde há muito, praticamente em ruínas permitindo a entrada de águas. Devido a motivos burocráticos e de natureza legal, a cobertura só foi reparada no final de 1976 (obra a cargo da DGEMN). Quanto aos frescos, a sua conservação e restauro iniciou-se em 1973, foi interrompida em 1975 (por incidentes com a população), retomada em 1977, para terminar definitivamente um ano mais tarde, não por conclusão dos trabalhos, mas por divergências com a actuação dos Monumentos Nacionais de então.

A demora na execução da intervenção deveu-se assim aos motivos tradicionais da gestão patrimonial no nosso país: falta de entendimento / conflito entre as várias entidades envolvidas; carência de verbas que permitissem a execução de um plano de intervenção completo; consequentemente, a natural saturação por parte da população local relativamente aos trabalhos levados a cabo (A DPM recusava-se a continuar com o tratamento dos frescos enquanto a cobertura da Igreja não estivesse concertada (Cf. Processo de Obra das Pinturas Murais da Igreja Matriz de Vila Ruiva, 4º relatório, 17 de Janeiro de 1975). Vivendo-se o período do PREC e sendo a população de Vila Ruiva particularmente ciosa dos seus bens, o arrastar das obras levou à situação insólita dos técnicos do IJF terem sido expulsos da Igreja e escoltados ao Posto da GNR de Vila Alva (Cf. Idem, 20 de Maio de 1975: “O tratamento foi interrompido por incidentes com a população”). Assim, somente em 1977, depois da colocação da cobertura pela DGEMN, continuou a DPM a desenvolver o seu trabalho. Contudo, em Julho de 1978, um novo conflito com a DGEMN levou ao cancelamento definitivo dos trabalhos (a DGEMN tinha colocado rebocos de cimento e cal acabada de apagar em várias zonas com fresco – por ter arrancado o púlpito e o coro [Fig. 2] – e não executou a drenagem solicitada para resolver o problema das infiltrações na Igreja; acresce que tinha encostado os bancos da Igreja aos frescos [Fig. 1]). Conclui Teresa Cabral, autora do relatório: “Levámos o andaime para Faro do Alentejo” (Cf. Idem, 9º Relatório, 10 a 4 de Julho de 1978). As pinturas murais em causa não chegaram pois a ser intervencionadas na sua totalidade (imagens a p/b copyright Instituto dos Museus e da Conservação).

Somente em 2002, na sequência de uma Presidência Aberta ao Projecto Rota do Fresco e a uma visita em concreto à Igreja Matriz de Vila Ruiva, se voltaram a desbloquear verbas há muito prometidas ao IGESPAR, à Câmara de Cuba e ao Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja para a necessária intervenção por concluir.

Com o restauro levado a cabo, descobriram-se frescos da abóbada do 3º tramo da nave, com a representação de santos perfeitamente integrados no exíguo espaço disponível entre as nervuras da abóbada estrelada. De sublinhar ainda os fragmentos visíveis de mais pintura mural escondida por debaixo da cal quer nas abóbadas, quer nos alçados da nave, numa prova evidente da decoração totalizante e monumental de mais um edifício religioso alentejano (saiba mais sobre a pintura mural alentejana).